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pensei em começar esta parte falando unicamente de meu trabalho, estabelecendo
por assim dizer, uma espécie de modo de uso ou grossário
sobre ele, mas me pareceu mais sensato falar também de mim, de algumas
das idéias que tenho do mundo, um pouco de meu percurso pessoal e profissional,
e enfim, de meu trabalho, principalmente para que aqueles que desejam compreender
minhas obras, possam também entender uma parte do conceito que inspira
suas realizações. Através
dos séculos e em todas as civilizações, sem distinção
de raça ou credo, escribas e copistas, silenciosos e atentivos, com mãos
habéis, fiéis e pacientes, nos trasmitem com seus instrumentos de
caligrafia: textos sagrados, fatos históricos, estórias de amor
e de poesia, lendas inesquecíveis, tratados de paz, ciência e leis.
Estes são os pilares do conhecimento humano, chaves de acesso ao entendimento
para compreender nossa existência, para com um olhar atentivo diante de
belos manuscritos do passado, possamos preparar o amanhã ou penetrar num
mundo de sonhos... ainda que por instantes. Foi
com esse tipo de reflexão, que um dia, enquanto contemplava alguns destes
manuscritos, anos atrás, decidí iniciar a viagem de retorno (e
sem retorno) que realizo hoje, entre o real e o imaginário, através
do conhecimento humano em todas as suas épocas; reescrevendo o que já
foi escrito; retraçando idéias passadas mas marcantes para mim;
repensando o já pensado; procurando ressentir em meu ser as mesmas sensações
que os homens antes de mim sentiram, mesmo que o faça de maneira quase
nostálgica. Cruzando textos inteiros, dezenas deles como se não
houvesse fim, me enveredando por entre frases, às vezes sem um sentido
imediato no instante, mas que após uma reflexão profunda, me deparo
com uma sabedoria superior, me fazendo sentir como uma criança, sedenta
por saber. E
como tenho minhas dúvidas acerca de tudo na vida, inclusive de mim mesmo
e de até onde posso ir; como me considero curioso em entender o desconhecido
para descobrir as outras versões de nossa existência; como sou interessado
em conhecer os outros lados da mesma questão, os segredos desta vida; eu
mergulho no passado através dos manuscritos, dos livros, procurando desvendar
tudo através deles, todos os detalhes; recopiando as questões, os
enigmas, as respostas; transcrevendo os pensamentos de outros mais audaciosos
que eu. E como não sei se terei muitos anos de vida diante de mim - pois
acredito que quando não pensamos na morte, somos irresponsáveis
com a vida, deixando de realizar projetos dignos de nossa passagem neste planeta
-, ocupo meus dias debruçado sobre os livros, com seus textos muitas vezes
longos mas envolventes; sim, mergulhado sobre eles de maneira intensa, atentiva
e interessada. Eu os fixo com meus olhos, sem pressa: contexto por contexto, linha
por linha; eu me alimento pouco a pouco da sabedoria que eles me transmitem; eu
os absorvo procurando assim sentir a essência destas épocas e de
suas idéias; procurando aplicar alguns dos ensinamentos passados à
realidade do meu hoje, de meu tempo. Ou com minha imaginação, transporto-me
para lá, para após representar estas idéias através
de minhas obras.
Todos estes textos, belos textos. Eu os procuro, fascinado, por todos os lugares
onde eles ainda teem seu espaço, eu os admiro, os transcrevo com respeito,
dando a eles o valor que posso dá-los. Eu os transcrevo: em francês,
em latim, em português, em inglês, em... comparando-os; tentando nas
reflexões me colocar ao lado de seus autores para entender sua elaboração;
faço isso sem me preocupar com a hora, como se o tempo fosse minha habitação,
meu único lugar de inspiração. Tudo isso me fascina, me envolve
corpo inteiro, alma inteira, meu tempo inteiro. E
após terminado meu estudo, eu traço num papel o lugar onde receberá
o texto escolhido, tão apreciado, a ser reproduzido por mim. Eu imagino
o texto terminado, bem aconchegado, às vezes iluminado, futuramente admirado.
E é assim que inicio sua transcrição em meio a gestos simples
e comprometidos, por sobre o suporte, com minha pluma, na letra que eu imagino
para ele. Mas que letra eu escolho à cada transcrição caligráfica?
Escolho a letra que atende ao meu estado de espírito do momento, a letra
certa, no tamanho certo; a letra que me fala à medida que minhas mãos
recopiam palavras, frases inteiras. Numa atitude espiritual para mim. Creio
no espírito e no espiritual! Minha
criação é um estado de espírito!. Sim, meu trabalho
é conceitual, espiritual, intelectual; às vezes sensual, poético,
e na maioria das vezes pleno de contrastes. Insignificante para alguns e interessante
para outros. Para mim no entanto, ele é meu eu, minha melhor forma de expressão,
minha sensibilidade em erupção, minhas idéias em marcha.
Ele é meu íntimo desnudado, a forma que procuro dar a vida, ao belo
do feminino, à minhas poesias. O resto é meu estudo prático
do mundo, sobre meus erros e acertos, sobre meu conhecimento adquirido através
da cultura humana. Os
textos escritos fixam definitivamente as reflexões do homem, resultado
da organização e associação das idéias que
em si mesmas são um movimento puramente mental e desassociado da matéria.
Escrever
é deixar uma marca de si mesmo. Assim
sendo, transcrevendo os textos, eu materializo as reflexões humanas. Eu
dou um corpo físico e vísivel a elas. Eu lhes executo na ambição
de fazê-las ultrapassar os limites do tempo, pois uma obra de arte é
feita para durar. Minhas
obras são a cópia exata da reflexão do homem em todos os
tempos, elas são apresentadas por mim em material durável e permanente,
e constituem a preservação do conhecimento, assim como uma imagem
ou quadro do discurso falado. Mas
se os textos não me pertencem, o que é meu em meu trabalho? O conceito.
Mas que conceito?. Meu trabalho é a soma: do conhecimento - que não
é meu e que é conhecido de todos, ou seja, os textos; mais os alfabetos
- que são históricos e também conhecidos de todos; mais a
interpretação pessoal e representaçao gráfica por
mim estabelecida em suporte nobre e palpável. E é este o conceito,
tendo como resultado uma visão única e original do conjunto vísivel,
sensível e durável. Ora,
se a natureza do que existe e vive, é o jogo incessante de movimento e
repouso, e a Arte com todas as suas disciplinas como a música, a dança,
o teatro, a pintura, a escultura, o desenho, entre outras, se aplicam a captar
e reproduzir o momento do movimento ou do repouso naturais da vida, pois o original
será sempre o que nos inspira. Meu trabalho tem por objetivo imobilizar
a reflexão, que considero como um repouso posterior ao movimento incessante
e ondulatório das idéias dos grandes pensadores, ou seja do homem.
O resultado é a materialização do espírito dos textos
que considero como belos. Mas como sei que o belo é relativo diante da
sensação, gosto, percepção e educação
de cada um, à cada um sua livre e espontânea apreciação. Meu
lado filósofo me diz que o artista é um homem de todos os tempos;
se situa em todas as épocas; é sensível a todas as mudanças
em torno de sí e contempla toda a humanidade. Os textos que escolho e que
utilizo em minhas obras me são testemunhas do que venho de afirmar, pois
acredito que tudo muda e o homem se adapta. Ele reinvindica sua superioridade,
sua habilidade a resolver problemas de ordem existencial, sua vocação
a tudo dominar neste planeta, seu interesse a fazer parte da vida, a tornar agradável
esta vida. Sua busca incessante pelo belo, este belo que, segundo eu, continua
a ser relativo. A propósito, se Deus na Sua criação se teve
por satisfeito do resultado em perceber que tudo era bom, e naturalmente
belo; eu porém, como todo artista, observo que há do belo como resultado
em meu trabalho, mas me sinto sempre insatisfeito do resultado e me interrogo
à cada obra se este resultado é bom. Esta
reflexão me conduz a conclusão de que tudo o que conta na execução
de uma obra de criação é fazer bem feito e que o resultado
seja bom - apesar da busca incessante e sem fim pela perfeição -
e que o belo é uma sensação que um criador deixa aos admiradores
o privilégio da satisfação. Eu
sou um leitor compulsivo, um apaixonado por livros, pela história, por
arte, por comunicação, por arqueologia, pelo espiritual... interessado
em entender os fenômenos desta vida. E estes livros e disciplinas de que
falo, fontes de aprendizagem para mim, me acompanham desde minha mais tenra idade:
Luís Vaz de Camões, Fernando Veríssimo, José de Alencar,
Cecília Meirelles, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Cláudio
Abramo, Augusto Rodin, Wassily Kandinsky, Fernando Botero, Albert Einstein, Hypolite
Taine, Olavo Bilac, René Huyghe, René Descartes, Antoine Marie Jean-Baptiste
Roger de Saint-Exupéry, Miguel de Cervantes Saavedra, Jean-Jacques Rousseau,
Charles de Secondat Montesquieu, Johann Wolfgang von Goethe, Georg Wilhelm Friedrich
Hegel, Emmanuel Kant, Umberto Eco, Friedrich Nietzsche, Jean-Paul Sartre, Emile
Zola, Jules Verne, Daniel De Foe, Franz Kafka, Leonardo Da Vinci, Giorgio Vasari,
Albert Dürer, Johannes Gutemberg, Erasmo (Desiderius Erasmus Roterodamus),
Miguel Angelo, Ticiano (Tiziano Vecellio), Gustavo Klimt, Peter Paul Rubens, Rembrandt
Harmenszoon van Rijn, Johannes Vermeer, Rafael, Edward Johnston, Johannes Itten,
John Kenneth Galbraith, Martin Luther King, a Biblia Sagrada (que lí
integralmente durante meu curso de teologia numa escola teológica protestante),
David Ben Gurion, Kundera, Ronsard, Martinho Lutero, São Jerônimo,
Homero, Platão, Richard Shusterman, Arthur Miller, Tony Godfrey, Otto Rank,
George Dupless, Phedre, Esope, Jacob e Wilhelm Grimm, Jean de la Fontaine... entre
tantos outros, ajudaram-me a solidificar minha própria idéia da
vida: natural e espiritual. Tenho
uma veneração especial por nossa escrita ocidental e pelas línguas
que ela representa; veneração pela literatura e pela arte em todas
as suas formas, pela ciência como complemento e não como o centro
de todas as respostas, como tentam alguns fazer-nos isto acreditar em nossos dias.
Mas
não aprendí e aprendo somente com os livros, aprendí e aprendo
também com os demais. Falo daqueles que me querem bem, ou dos que se interessam
por mim, ou dos mais velhos, de todos os que considero sábios - através
de seus conselhos, pois acredito que conselho é bom, que deve ser dado
e que deve ser aceito; com os dezenas de profissionais que conhecí e com
os que conheço - que dividindo e trocando comigo seu saber, suas reflexões
e suas experiências, contribuiram e contribuem no meu conhecimento. Eles
me ajudaram a decidir o que queria realizar na vida de maneira prática
e que me dão hoje autonomia, autoridade e determinação através
das escolhas profissionais que faço para mim. Aprendi
a sonhar e a desejar vez por outra: um mundo de cultura elevada, mais humano,
mais justo, mais inteligente, mais educado e menos formalista... mesmo que seja
por instantes; mesmo quando não sou visto; mesmo me sentindo utópico
e antiquado... ainda assim eu sonho e continuo a sonhar mesmo hoje!. Eu continuo
a sonhar porque creio (citando Areano Suassuna) que a cultura tem anti-corpos. E
foi quando eu morei numa banlieue parisiense que aprendí - olhando os pássaros
que se pousavam sobre minha janela: livres, satisfeitos, meus companheiros de
cada dia, (uma de minhas fontes de inspiração) - a voar na
imaginação, a ousar, a me aventurar no mais íntimo de mim
mesmo buscando respostas; a estabelecer meu mundo próprio, a estruturar
e reforçar meu pequeno atelier, tendo como companhia as palavras que ecoavam
no ar daquela primavera; palavras plenas de força, que enchiam minha alma
de propostas, de temas os mais variados, de reflexões, de teses às
vezes até absurdas... E nestes instantes eu pensava por um momento naqueles
pequenos seres lá fora, que com alegria e engenhosidade preparavam seus
ninhos. Estes eram como momentos mágicos para mim; eu contemplava aquela
cena diante de mim como algo perfeito, como algo de extraordinário, como
um milagre da existência, sem saber se veria outra vez tal evento, tão
fantástico, tão... genial!. E assim parava meu trabalho e saía
um pouco por aí, caminhando pelas ruas de La Garenne Colombes, de Paris,
pelas praças afora, jardim do Luxembourg; tomando o RER, às vezes
o trem da SNCF; o metrô parisiense; entrando nas filas e corredores humanos
que se formam por todos os lugares (este sofrimento humano de sempre);
na estação Saint Lazare, em Les Halles... com a mente distante,
viajando nas idéias, na minha própria maneira de ver o mundo; passando
despercebido em meio a massa, com este meu estado de espírito só
meu. Tenho
um respeito especial pelo Livre-Arbítrio, principalmente o dos outros,
e isto constitue para mim o primeiro de meus mandamentos na relação
humana. Todos
nós temos direito ao amor, à sexualidade, ao pudor, à liberdade,
à intimidade, ao respeito, a pensar o que quisermos de tudo e sobre tudo;
a nos expressarmos livremente; a crermos no que queremos crer sem impedimentos,
assim como a em nada crermos de tudo o que os outros nos apresenta; a nos sentirmos
gente, a nos sentirmos desejados, a nosso valor próprio, a sermos vistos;
a sermos conhecidos ou desconhecidos de todos; direito a nossa timidez; direito
a expressar nosso mais íntimo desejo e a desejarmos o outro que amamos
- de corpo e alma - com o melhor de nós, sem sofrermos julgamentos dos
demais por causa de nossas escolhas. Sim, temos direito a expressarmos tudo o
que se encontra em nosso íntimo; em nosso coração, em nosso
entendimento. Direito a crermos em Deus, como direito a termos o livre arbítrio
de seguir cada um seu caminho como bem se entende. Direito a sermos cidadãos;
a defendermos, a dependermos e sermos protegidos pelo Estado; e direito a sermos
homens livres nas idéias, pensando diferente dos outros e deste mesmo Estado,
e podermos manisfestar isso abertamente sem nos sentirmos perseguidos; ou partirmos
para outras terras, outras culturas, onde se defende as mesmas idéias que
temos sobre tudo, sem encontrarmos barreiras em nossa viagem. Me
realizo no meu trabalho e exteriorizo sobre o suporte tudo o que meu estado de
espírito fornece em meus momentos de inspiração. Minha caligrafia
é meu instrumento de trabalho, e a ela consagro meu tempo, minha disciplina,
meu conhecimento. Através dela dou forma a tudo que meu espírito
entende por ideal e belo; faço isso dezenas de vezes se for preciso, num
ritual incessante, pois isto me dá prazer, pois isto me realiza, é
isto meu mundo. Aprendí
a caminhar sozinho, abrindo meu caminho com confiança: em Deus, em mim,
no meu trabalho e no futuro. Eu trabalho duro! Todos os dias! Com disciplina e
esperando no tempo, o resultado de meu trabalho. E quanto a este tempo, o tempo
que ocupa meus dias, eu o uso caligrafiando, realizando minhas obras em meu atelier,
descobrindo novos livros por livrarias afora: em Paris, em Strasbourg, em Bruxelas...
tentando aprender, tentando entender as verdades dos outros, fazendo às
vezes valer as minhas, pois quem é o que detém a verdade absoluta?
E para continuar a falar sobre o que o penso, também creio num mundo onde
forças se opõem, na diversidade cultural entre Oriente e Ocidente
- onde as diferenças reinvidicam com legitimidade seus direitos. Creio
na atração do claro pelo escuro; na necessidade absoluta do contraste
em tudo, pois esta vida é feita de contrastes; ela é plena de oposições
necessárias.
Creio na diversidade de opiniões e que as diferenças são
importantes para o equilíbrio de nossa sociedade e para sua sobrevivência.
Da mesma forma que a noite e o dia são essenciais neste mundo onde o claro
e escuro coabitam em equilíbrio. E por isso utilizo nos meus trabalhos
o vermelho: de amores, paixões e vida, ou como representação
de perda, lutas sangrentas e tragédias, em oposição e equilíbrio
com o preto: como marca permanente das idéias humanas, ou vez por outra
dos sentimentos e situações obscuras. Pertenço
a meu tempo e tento representar meu trabalho de forma atual, mas não sou
preso a minha época como se estivesse numa bolha. Ao contrário,
desbravo o passado antes de mim pelos corredores da história, destrinchando
realidades que estão vivas e presentes ainda hoje em nosso meio; modelos
e princípios: políticos, culturais e religiosos, que são
humanos e universais; que fizeram e fazem parte das civilizações
em todos os tempos, pois eles são como espelhos que refletem uma luz sobre
nosso mundo atual, abrindo portas, ajudando-nos a regular nossa conduta, consolidando
nossos valores, estruturando nossa sociedade; eternizando através de gerações:
conceitos, idéias e fatos. Também tenho meus próprios conceitos
e os exponho em meu trabalho com os materiais de que disponho hoje, e da forma
mais apropriada e coerente a nosso tempo. Tenho
a crença do amor, desta força que eleva o homem ao mais alto nível
de si mesmo, e assim como Don Quixote que se aventurou em busca de sua
Dulcinéia com confiança no resultado, creio na ilusão
de que a arte pode iluminar o mundo, penetrar o íntimo dos homens e manifestar
o que há de mais belo em nós. E
como nossa linguagem há necessidade de ser exteriorizada e fixada; como
os gritos de nossa alma assim como nossas idéias e paixões, precisam
serem vistas e contempladas pelo mundo exterior para satisfação
de nosso espírito; porque não trabalhar os signos que representam
e atendem a este desejo humano normal e justo? É nisso o que consiste meu
trabalho de pesquisa e transcrição das obras do passado: eu represento
as idéias e aspirações da alma de seus autores através
destes textos considerando o que nos foi transmitido. Estes
pequenos signos que mudam o contexto das idéias à cada vez que se
faz necessário; que tocam o fundo de nós mesmos; juntando-se em
grupos, pequenos, grandes, para formarem sílabas, palavras, frases; transformando-se
em idiomas diferentes, mudando a linguagem, nos revelando segredos, nos orientando
e nos dando direito a uma reflexão profunda de nossos desejos e da razão
de sermos o que somos. Que dão sentido ao sentimento, ao grito, às
lágrimas, ao pranto, à alegria, ao amor, ao desabafo, ao que é
humano, ao que é legítimo em nós!. Estas
pequenas letras mágicas plenas de personalidade, individualismo e força
de expressão, que tomando formas diferentes, sejam em Rústicas,
Onciais, Carolinas, Góticas: primitivas, texturas,
rotundas, fraktur, flamandas ou batardas,
nos dão a sensação de vivermos um outro tempo, uma outra
época; de capturar para nós a história, poder dela fazermos
parte. Letras que me fascinam à cada assunto e onde procuro isolá-las
para lhes dá um valor todo especial à sua individualidade. Eu poderia
caligrafiá-las e representá-las até meu último suspiro
de vida. Isto seria um prazer para mim! E
parar continuar a falar de minha caligrafia, deste veículo que me torna
cúmplice da história, ela é a ferramenta que também
utilizo para reafirmar minhas convicções e crenças; que emprego
para exteriorizar e representar meus conceitos de forma visual e artística;
com a ajuda de textos que eu tenho por excelentes. Ela é o recurso que
disponho e utilizo para dividir com quem gosta de meu trabalho, tudo o que insisto
em descrever. Em
meu trabalho caligráfico, as letras antigas não são simples
alfabetos perdidos, coisa do passado; peças de museu; um mero assunto de
paleógrafo. Elas têm o valor merecido, a importância que devem
ter. Com
minha pluma em punho liberando delicadamente a tinta sobre o suporte, as palavras
ressurgem uma-a-uma, lado-a-lado, deixando a imaginação me ser por
limite, a fronteira que me diz onde parar. Mas logo terminado este trabalho, eu
passo à um outro, pois tenho urgência no instante; neste instante
completamente possuído pela inspiração que toma conta de
mim. Tenho necessidade disso, é como respirar para mim. É um vicio
que alimenta minha alma. Tenho necessidade da urgência do "agora",
da inspiração que exige uma satisfação plena, um resultado;
necessidade desta inspiração que compreende os gemidos mais íntimos
de meu desejo de criar e se apodera de mim; que no silêncio mais intenso,
onde todos dormem, ela me desperta e me apresenta uma outra versão da mesma
idéia, uma outra concepção da forma a exteriorizar, ou uma
simples observação para denunciar os erros por mim cometidos. Diria
ainda que a caligrafia é o meio pelo qual alguns de meus desejos se exprimem,
pois nela desabafo, expresso, proponho, exponho, indago, questiono, discordo,
concordo... e dezenas de adjetivos misturados a verbos encheriam páginas
inteiras para falar desta arte que tem um espaço especial em minha vida. E
para melhor ver uma de minhas obras caligráficas, é preciso se distanciar
do presente, da mecanização contemporânea de nosso alfabeto.
Evitar comparações. Ver o conjunto, o todo, como uma unidade inseparável,
suas formas, vê-la com olhos sensíveis e despreocupados. É
preciso se situar entre o passado e a conservação das idéias,
nem sempre bem apreciadas por esta geração que ama tudo mudar; que
tem obsessão pelo descartável. Para entender minhas obras, é
preciso ter os mesmos valores que tem as pessoas que não tem o tempo por
inimigo, ou a tradição por antiquada. É preciso amar as letras,
a escrita, a pluma, a história, o tempo... Pois,
quando estou inspirado, desconheço meus limites e pleno de imaginação
começo a rabiscar, a traçar com minha pluma, a explorar as cores
para me realizar na criação. E assim dou cor e vida a meus conceitos.
Utilizando as cores de que falo, em dosagens equilibradas e em harmonia entre
elas, como uma bela roupa para o corpo vísivel do conteúdo por mim
representado. Cores
que não me canso de estudar; com sua sensibilidade matemática, com
suas sensações as mais diversas a nós comunicadas, com seu
equilíbrio e oposição. Cores de suas infinitas combinações
possíveis, de seus contrastes, agradáveis ou desagradáveis
aos olhos. O estudo da cor e sua aplicação: seja na harmonia entre
elas, ou como o uso de seus contrastes é para mim uma preocupação
permanente. Um estudo que começou há muitos anos atrás em
alguns cursos que participei sobre programação visual e que teve
continuidade com meus estudos na Escola Superior de Artes e Insdústria
Gráfica Estienne, em Paris; através de aparelhos de precisão,
meses de aulas teóricas e práticas em laboratório ou sobre
máquinas offset, e de aulas de física, que me ensinaram a importância
da separação científica da luz. Graças à compreensão
de sua constituição, composição e aplicação,
eu posso controlar as cores para obter a qualidade esperada nas várias
formas de impressão sobre os mais variados suportes. Mas
no meu trabalho eu não só invoco textos e cores; história
e literatura; lendas e fatos; crenças e manisfestos... No meu trabalho
tenho também um espaço reservado à representação
do corpo feminino com suas curvas perfeitas e belas, como uma das formas de beleza
do espírito humano. E porque eu não lembraria da mulher em meus
trabalhos? Desse ser que muda o curso da história quando quer? Que com
gestos tenros, delicados, plenos de graça e sedução, faz
este mundo mais perfumado; da beleza algo essencial; dos homens embaixadores de
paz ou conquistadores implacáveis. Represento elas em meus trabalhos com
a mesma emoção que me causam os outros temas que me inspiram. Transcrevo
sobre o suporte seus gestos encantadores, femininos e majestosos que só
a elas foi dado o direito de possuir. Com a originalidade feminina que os outros
seres são privados de ter. Mulheres sem rostos, sem condição
social, sem nível de estudo, sem profissão...sem nada disso como
algo de importante. Imaginárias, sensuais, belas para mim; gordas, magras,
altas, baixas. Elas estão em minhas criações como representação
do belo, como exteriorização do lado fascinante do espírito
humano, como motor de inspiração para aqueles que desejam o amor,
porque sem esta imagem de mulher, assim, consciente do poder que ela libera, não
pode existir amor, poesia, desejo, conquista, encantamento, romance, sentido e
razão na vida de um homem. É disso que falam também as poesias
que escrevo e que as acompanham. Meu
amor pelas grandes idéias; pelos ideais; pela mulher; pela sensualidade;
pelos contrastes; pelo que é manual; pelo intelecto; pelo ser humano; pelo
que é legítimo e justo; pelas paixões ardentes; pela oposição
positiva; por um mundo melhor. São estas as matérias-primas de onde
extraío o conteúdo necessário para dar forma ao que pretendo
mostrar através da representação conceitual que significa
meu trabalho. Este
trabalho que faz parte de um renouveau que tem como ambiente, familías
de letras manuais que homens como Albert Dürer, Jan Van den Velde e Edward
Johnston, entre outros, souberam valorizar e imortalizar através da Caligrafia. Esta
arte que me é como um veículo por onde conduzo minhas idéias,
por onde deixo fluir minha inspiração, meu interior às vezes
inquieto, melancólico, esperançoso, contraditório, apaixonado,
amante, firme, rigoroso, pecador, curioso, admirador. Por onde exprimo os meus
sentimentos em relação a representação do mundo exterior
em torno de mim, diante de mim. Esta arte por onde com a mão firme e livre
dou a forma que quero a mulher ou assunto que contemplo e admiro; através
do traço, através das cores. E
não poderia finalizar sem antes falar da pluma paciente que me serve, que
me acompanha, que me obedeçe silenciosa e que não se cansa de tudo
recomeçar à cada vez que meus olhos dizem não gostarem do
resultado; nos movimentos os mais variados em busca da perfeição,
de equilíbrio, da harmonia, da simetria, do que é correto, alinhado,
coerente, bonito, ideal, conceitual, estético, profundo, sensível,
legitímo!... Dando forma por onde ela passa, a tudo o que minha imaginação
concebe; realizando letras, as mais belas para mim... Eu
pego a pluma, eu escolho um alfabeto, eu carrego a pluma de tinta, eu sinto a
pluma, eu movimento a pluma, eu traço com a pluma, eu faço circulos
com a pluma sobre o suporte, eu olho a espessura do traço da pluma, eu
subo com a pluma, eu desço, eu traço à direita, eu traço
à esquerda, eu paro, eu continuo, eu retorno em ritmos elegantes, eu imagino,
eu me exprimo, eu danço balé através dos traços regulares,
eu mudo a cor da tinta, de pluma, de letra, eu mudo de direção em
traços irregulares, em traços contrários, eu sinto a música
invisivel que a harmonia das letras criam, eu paro, eu relaxo o braço,
eu leio novamente o texto que transcrevo, eu o analiso em silêncio, eu o
compreendo, eu o contesto ou eu lhe dou meu acordo, eu o comparo com o texto caligrafiado,
eu recomeço, eu pego a pluma, eu invento, eu crio, eu erro, eu paro, eu
recomeço, eu paro, eu repouso outra vez a pluma, eu olho o espaço
infinito do suporte, eu elevo meus olhos, eu contemplo o vazio em torno de mim,
eu penso, eu imagino, eu me transponho a um outro mundo, eu retorno, eu calculo,
eu decido, eu ouso... eu pego a pluma novamente, eu escolho um alfabeto, eu carrego
a pluma de tinta, eu sinto a pluma, eu olho a espessura do traço da pluma,
eu movimento a pluma, eu traço com a pluma... Da
Rústica à Batarda... para mim, sentir o movimento delicado e envolvente
da pluma é um momento mágico, definitivo e único, onde posso
expressar e reproduzir com meu toque pessoal, com liberdade, paixão e afeição,
tudo aquilo que faz parte de minha criatividade, interpretação da
vida, vontade, cultura, convicção e crença. São
essas algumas das muitas razões de meu trabalho; algumas das idéias
que inspiram sua realização.
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